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30 de abril de 2008 FRUTOS DE TRANSFORMAÇÃO O VI Encontro de coordenadores provinciais do setor do Apostolado Paroquial da CPAL acaba de se concluir em Havana, com a participação de todos os convocados e com a idéia de buscar nossa missão posterior à Congregação Geral. Nesse contexto, conversamos sobre “os frutos apostólicos da CG 35”, tal como se chamou uma das apresentações. A associação desta idéia com o final da homilia da Eucaristia de encerramento da CG 35 aparece com clareza. Nela, o P. Geral Adolfo Nicolas referiu-se ao tema dos “frutos” deste modo: “vivemos uma grande experiência e acredito que todos estamos conscientes disso. Mas a palavra de Deus nos convida a ir à fonte desta experiência e a comprovar que essa transformação não é algo que termina aqui, mas sim continua e que tudo isto se faz missão, uma missão total, que continuará produzindo frutos em outros. Retornar a nossas casas com menos que isso não justificaria os dois meses que vivemos juntos, guiados pelo Espírito e procurando em tudo a vontade de Deus. Hoje pedimos que esta experiência e esta palavra de Deus que escutamos atuem juntas e produzam frutos de transformação primeiro em nós e que a seguir esses frutos se dêem em outros, para que a fé que comunicamos seja uma fé transformadora” (Igreja do Gesù, Roma, 6 de março de 2008). Coincidentemente, o P. Kolvenbach tinha concluído a CG 34 com palavras muito semelhantes. Dizia ele em sua homilia final: “a Congregação nos chama a uma mudança de mentalidade, a uma maior transparência de nossa missão, a uma conversão do coração orientada a ‘oblações de maior estima e maior momento’ (EE. 97). Por que fazer-se ilusões? Da conversão ou a falta de conversão dependerá o futuro” (22/03/1995). Quais são esses “frutos de transformação”, essa “conversão” da qual depende o futuro? Para entender isso, é preciso referir-se aos três grandes desafios ou interpelações que esta Congregação experimentou. Em primeiro lugar, a construção da unidade na diversidade de culturas e procedências que hoje marcam a Companhia. Foi a experiência desta Congregação “cheia de uma rica diversidade, possivelmente a maior que se deu na história das congregações gerais”, diz o P. Nicolás em sua homilia. Em uma entrevista à RAI (Rádio e Televisão Italiana), de julho de 2004, o P. Kolvenbach tinha destacado a mesma idéia: “desde o começo, a Companhia esteve presente em vários países fora da Europa. Mas as mudanças no número e a chegada de jesuítas de outras áreas culturais trouxeram mudanças importantes… A variedade de nacionalidades entre os primeiros jesuítas não pode ser comparada com a que atualmente prevalece entre nós. Se no passado, a Companhia teve um estilo ocidental e uma cultura bastante uniforme, hoje nos podemos considerar enriquecidos com os elementos de muitas outras culturas, embora tal riqueza nos empurre a trabalhar com empenho por manter a unidade de mente e coração. Quase de maneira casual, Inácio nos deixou uma preciosa nota de identidade: ‘ir aqui e lá e viver em qualquer parte do mundo onde se espera maior serviço de Deus e ajuda das almas’”. O P. Kolvenbach concluía com uma frase contundente: “Jamais, em 463 anos de existência da Companhia, os jesuítas responderam às expectativas do Fundador como no atual momento”. A Companhia, com efeito, está presente em mais de 120 países e, dado novo e importante, com vocações originárias. A procedência das vocações está mudando o rosto do corpo apostólico, como foi evidente na composição da Congregação. As últimas estatísticas, recentemente publicadas, confirmam a tendência: Ásia e África abrigam 37,7% dos jesuítas; sua idade média é de 49,4 anos (12 anos mais baixa que o resto: 61,3) e são as Assistências com maior número de noviços (57.4% do total). Não por acaso, “universalidade” é um termo que aparece diversas vezes nos decretos. A realidade nos desafia a progredir nela, a explorar novas formas de conhecimento mútuo entre a América Latina, Ásia e África, e a crescer como homens interculturais. Os três últimos Generais o foram. Não haverá algo que captar nesse dado? Um segundo desafio tem a ver com a necessária renovação espiritual do corpo apostólico, a partir de um exame a fundo de atitudes e comportamentos que nos paralisam ou reduzem o ritmo de nosso serviço. A Congregação voltou a nos falar da vigência e vitalidade de nosso carisma e de nossa missão como algo a “redescobrir”. A Companhia mantém seus recursos espirituais intactos nos Exercícios, em seu “relato” ou tradição, em seu “modo de proceder”, aquele que delineiam as Constituições. Nada disto passou de moda nas diversas releituras que as últimas Congregações realizaram de nosso serviço ao mundo e à Igreja. Entretanto, a Congregação constatou que o corpo apostólico se encontra anêmico em diversas partes; muitas comunidades se instalaram em um estilo de vida burguês, nossas obras se tornaram invisíveis, deixamo-nos facilmente ganhar por um excessivo provincianismo, nos encontramos à vontade imersos na chamada “cultura de vícios” e, em certas ocasiões, tendemos a reproduzir internamente as divisões sociais e as polarizações ideológicas do nosso entorno. “Pecadores e entretanto chamados”, a Congregação nos recorda que o desafio que nos faz jesuítas é viver em uma “polaridade criativa”: “com Cristo em missão, sempre contemplativos, sempre ativos”. “Redescobrir nosso carisma” não significa, pois, sentar-se a ler o inspirado primeiro decreto da Congregação, mas saber captar e deixar-se levar por seu impulso espiritual e pela experiência que pulsa nele. Esta Congregação apela a cada um de nós a nos examinar com diligência e a viver com coerência. Assim, no dizer do prólogo à primeira edição das Constituições, “nossa vida concordará com nosso nome e nossa profissão se manifestará em nossas obras”. Um terceiro fruto de transformação nos deve levar a viver “com novo impulso e vigor” o vínculo particular que nos une ao Santo Padre e que qualifica nosso lugar na Igreja. Este desafio não será fácil à Companhia, como não foi fácil aos congregados processar durante dois meses o que o Senhor nos queria dizer através das duas intervenções do Bento XVI. Talvez por isso tanto o Papa como a Congregação tiveram que recorrer aos Exercícios: voltar para nosso Princípio e Fundamento, aquele que levou aos primeiros a dispor-se ao serviço da Igreja; experimentar o próprio pecado e a necessidade de cura e, sobre tudo, olhar ao futuro e à missão. “A Igreja necessita de vós, conta convosco e continua a confiar em vós, especialmente para chegar àqueles lugares físicos e espirituais aos quais outros não chegam ou acham difícil fazê-lo”, dizia a Papa na Audiência de 21 de fevereiro. Saberemos nos situar à altura deste chamado? Ou melhor, à altura da experiência de Inácio e dos primeiros companheiros que viram neste vínculo particular “nosso princípio e principal fundamento”? Se de conversão se trata, conviria recordar o que nos diz dela um converso, André Frossard, em seu livro Deus existe, tentando explicar o que experimentou ao sentir-se tocado por Deus: “meus sentimentos, minhas paisagens interiores, as construções intelectuais nas quais me tinha ancorado já não existiam; meus próprios costumes tinham desaparecido e meus gostos ficaram mudados”. Frossard passou do ateísmo à fé. A nós se pede algo possivelmente mais difícil: deixar nossas ancoragens (matizadas muitas vezes com linguagem religiosa) para viver na liberdade de quem se faz disponível para ir, como companheiros, à outra margem em que Ele nos espera. Ernesto Cavassa, S.J. |