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7.9.2010
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Formação: desafios e novos horizontes

 

 

Rio de Janeiro, 31 de gosto de 2010.

Nestes dias acontecem alguns encontros importantes para a educação de nossos estudantes jesuítas na América Latina. Por um lado, acontece em Lima, de 16 a 26 de agosto, uma nova edição do curso-oficina de formação de formadores, com a participação de 22 jesuítas de nove Províncias e Centros Interprovinciais. Além disso, de 06 a 10 de setembro os coordenadores provinciais de formação vão reunir-se em Belo Horizonte, com o apoio do P. Orlando Torres (PRI), Conselheiro Geral para a Formação, para a troca de experiências e partilha de critérios sobre esta dimensão fundamental para o corpo apostólico. Completando esta série de encontros, os reitores dos três Centros Interprovinciais (CIFs) terão sua terceira reunião deste ano. Na mesma data, e também em Belo Horizonte, encontrar-se-ão os membros da Comissão Teológica para a sua reunião anual.

O interesse pela formação de formadores vem de longe. A CG 34 se expressa assim, no decreto 8: "É muito importante que os diretores espirituais tenham a devida  preparação, sobretudo os que são formadores. Isso é mais necessário hoje por causa das influências atuais e problemas atuais relativos à maturidade afetiva e à sexualidade "(n. 37). Por isso o curso-oficina terá particularmente em conta estas áreas e os vários documentos que a Companhia tem para o tratamento adequado dessas questões. Uma delas é a publicação "Dispor a vida para a missão" (Coleção CPAL, 12), que inclui as propostas de formação para o crescimento espiritual a partir do noviciado, a dimensão afetivo-sexual e a comunicação nas várias etapas da formação.

Novos desafios surgiram desde a CG 34, afetando não apenas a formação de formadores, mas o conjunto da formação.

O primeiro vem da CG 35. Esta não produziu, como sabemos, um decreto sobre a formação. No entanto, ao tratar de questões para o governo ordinário, diz que "constitui um desafio para a formação não só encontrar as pedagogias adequadas, mas também o número e a formação de formadores, que possam responder a estes desafios." Depois de dizer isso, o mesmo documento adverte que a formação não se restringe ao que façam ou deixem de fazer os formadores, mas é tarefa da Companhia como um todo: diz que “houve consenso sobre a idéia de que o “formador essencial“ é o corpo da Companhia e, consequentemente, todos os jesuítas devem assumir a sua quota de responsabilidade nesta matéria". É todo o corpo apostólico que forma - ou deforma - o jovem que deseja incorporar-se definitivamente na Companhia.
 
Se as coisas são assim, falar de formação não pode limitar-se a simplesmente a tratar dos parágrafos que falam explicitamente desta dimensão. A CG 35 deu a todos uma visão a partir da qual se deve tratar a formação de todo o corpo em seus vários níveis: formação básica, especializada e permanente. Ninguém pode compreender a formação pós-GC 35 sem a necessidade de referí-la constantemente à experiência fundante da Companhia expressa no tríptico comunidade-identidade-missão (Decreto 2), às fronteiras apostólicas (Decreto 3), a nossa vinculação com a Igreja (Decretos de 1 e 4), à formação específica para o ministério do governo e do exercício da liderança (Decreto 5), ou à formação conjunta de jesuítas e colaboradores (Decreto 6).

Um segundo desafio para a formação nos vem do Papa Bento XVI. Mesmo antes da CG 35, em seu discurso em 22 de abril de 2006 na Basílica de São Pedro, manifestou preocupação com a formação espiritual e eclesial dos jovens jesuítas. O Papa volta a este assunto, solicitando ao P. Kolvenbach que a CG 35 reflita explicitamente sobre este ponto e sobre o valor e o cumprimento do quarto voto. A CG 35 aceita esse desafio e, no que diz respeito à formação, dá indicações concretas no decreto 4: convida todos os jovens jesuítas a viverem com coração alegre a incorporação progressiva na Companhia, no estilo dos primeiros companheiros; ele incentiva todos a crescer na “espiritualidade da obediência e na disponibilidade",  na abnegação que supõe a vida comunitária e uma séria e rigorosa dedicação aos estudos; incentiva os jesuítas em formação a cumprir os requisitos básicos de um vida em obediência (transparência, a valorização por conta da consciência e do espírito de discernimento). A seção conclui dizendo que "a formação espiritual e eclesial dos jesuítas deve acentuar a disponibilidade para a missão e o espírito de obediência ao Papa como "característica essencial da nossa missão e identidade“ (nn.36-39).

Um terceiro desafio para a formação na América Latina vem das mudanças demográficas internas: a AL contou em 2009 com 15% dos jesuítas em formação da Companhia universal, enquanto os da Ásia e África representaram 62%, quatro vezes mais. A Europa e os EUA somam apenas 23%. O futuro da Companhia é, portanto, oriental, meridional e, em maioria, de língua inglesa (pelo menos como segunda língua). Esta virada não é apenas estatística. Os Jesuítas na Ásia e na África vivem em contextos sociais e religiosos diferentes dos do Ocidente e, portanto, tem os seus próprios temas de interesse em nivel sociológico, teológico e eclesial. Como estamos nos preparando na AL para este futuro cada vez mais próximo?
 
Os outros dois desafios vêm da nossa experiência recente na CPAL. Primeiro, o Projeto Apostólico Comum (PAC) em processo de formulação. Se a formação é para a missão, o PAC, em especial as seis prioridades aprovadas - deve permear as linhas fundamentais dos planos de formação de cada província e, em particular, dos Centros Interprovinciais. Alguns têm sentido falta da menção explícita da formação entre as prioridades. Não era necessário. Elas não fazem distinção entre jesuítas formados e em formação. Elas são dirigidas a todos os jesuítas e é esperado deles, independentemente do seu grau de incorporação na Companhia, uma progressiva assimilação e aplicação ativa de todas as prioridades em sua vida e missão.

Em segundo lugar, a implementação dos Centros de Formação Interprovincial (CIF). Os primeiros meses de funcionamento nos falam de uma boa vontade existente de todos os atores de "vestir a camisa", apostando no projeto. Todo mundo quer apontar para o “magis" para o qual os CIFs foram criados: alcançar "uma maior qualidade religiosa, humana e acadêmica e que fomente a dimensão universal de nossa vocação." Os primeiros passos nos permitiram avançar nessa direção, clarificando objetivos e procedimentos, superando resistências inevitáveis e focando a atenção sobre o que mais importa: a necessidade de uma formação adequada na dimensão universal da nossa vocação, cada vez mais necessária em um mundo globalizado.

Ao mesmo tempo, as interações produzidas pela diversidade de procedências apontam para a inclusão na dinâmica futura da CIF de uma dimensão fundamental para a formação: a cultura, entendida como a atmosfera que nos rodeia e envolve de tal maneira que configura, muitas vezes inconscientemente, a nossa identidade. Questões como a identificação dos valores e limites das culturas de origem, a análise da "cultura global" em que vivemos, o seu impacto sobre a nossa fé, a espiritualidade e as escolhas de vida religiosa, o diálogo fé-culturas (uma das prioridades da CPAL), a interculturalidade como proposta para a formação e seu alcance para a inculturação  da fé passarão a fazer parte da agenda dos nossos Centros de Formação. Assim, eles não serão apenas interprovinciais; transformar-se-ão também em espacos de formação prática de interculturalidade, uma outra face da universalidade da missão.

Cinco desafios para a formação, sem pretensão de ser exaustivo, mas sim com o desejo de deixar-nos desafiar pelas novas circunstâncias. Vale também para a formação o que o decreto 2 da CG 35 diz a propósito do encontro de Cristo com a samaritana: o diálogo entre os dois "o conduziu... além das margens do habitual na sua cultura e religião, a um intercâmbio com uma pessoa com quem, os costumes O proibiam de falar. Neste Seu exceder-Se, Jesus abraçou diferenças e novos horizontes." (n. 12) Nessa mesma linha, o diálogo com as profundas transformacöes do mundo moderno deve levar  também à formação a abrir-se a novos horizontes.

Ernesto Cavassa, S.J.

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